Até onde isso é apenas ficção?
Em The Handmaid’s Tale (O Conto da Aia), a sociedade de Gilead transforma o amor em crime. Pessoas LGBTQIA+ são classificadas como portadoras de um suposto “pecado de gênero” e submetidas à vigilância, punição, tortura e apagamento de suas identidades.
Embora a série seja uma distopia, ela toca em algo profundamente real.
Milhões de pessoas ainda vivem tentando sobreviver em ambientes onde demonstrar afeto, expressar identidade ou simplesmente ser quem são pode significar rejeição, humilhação, exclusão ou violência.
E isso tem consequências diretas na saúde mental.
Quando existir vira um estado permanente de alerta

Em Gilead, ninguém sabe quem está observando.
Na vida real, muitas pessoas LGBTQIA+ crescem aprendendo exatamente isso:
vigiar o próprio jeito de falar, os gestos, a roupa, a forma de amar, os lugares onde podem andar de mãos dadas ou até o silêncio necessário para evitar agressões.
Do ponto de vista psiquiátrico, viver sob ameaça constante produz um estado de hipervigilância crônica — como se o cérebro nunca recebesse permissão para relaxar completamente.
Com o tempo, esse estresse contínuo pode favorecer o desenvolvimento de:
- ansiedade persistente;
- crises de pânico;
- depressão;
- insônia;
- abuso de substâncias;
- sentimentos crônicos de inadequação;
- ideação suicida.
Não porque exista algo “errado” na sexualidade da pessoa.
Mas porque o preconceito adoece.
A violência mais silenciosa: quando o preconceito passa a morar dentro da pessoa

Um dos mecanismos mais cruéis da opressão é fazer a vítima acreditar que merece ser rejeitada. Em Gilead, o regime tenta convencer as pessoas de que elas são moralmente “defeituosas”. Na vida real, isso aparece na forma da homofobia internalizada.
Quando alguém absorve, ao longo dos anos, mensagens sociais de vergonha, culpa ou pecado relacionadas à própria identidade. Muitas vezes, o sofrimento não vem apenas da agressão explícita, mas do esforço exaustivo de tentar se tornar aceitável para os outros.
Na prática clínica, isso pode aparecer como:
- autocensura constante;
- dificuldade de estabelecer vínculos afetivos;
- culpa após experiências de afeto;
- baixa autoestima;
- sensação de não pertencimento;
- autoabandono emocional.
Nenhum ser humano deveria precisar lutar diariamente contra a própria existência.
Na série, existe a resistência.
Existe a Mayday.
Na vida real, a resistência também existe — e ela salva vidas.
Toda vez que uma pessoa encontra um espaço onde não precisa se esconder, algo começa a se reorganizar internamente.
Famílias acolhedoras
Amigos confiáveis
Comunidades
Profissionais que escutam sem julgar
Ambientes onde identidade não é tolerada “apesar de”, mas respeitada integralmente.
Rede de apoio não é detalhe.
É fator de proteção em saúde mental.
O acolhimento reduz sofrimento psíquico, diminui risco de suicídio e ajuda a reconstruir algo fundamental: a sensação de dignidade.
Homofobia também é questão de saúde pública

A homofobia não é apenas um posicionamento social ou ideológico.
Ela produz adoecimento real.
O impacto do preconceito aparece em consultórios, emergências psiquiátricas, índices de depressão, ansiedade, automutilação e suicídio.
Por isso, combater a homofobia também significa promover saúde mental.
Construir ambientes onde ninguém precise viver em estado de defesa para existir.
Para além de Gilead

Diferente de Gilead, nós ainda temos escolha.
Podemos escolher escutar em vez de julgar.
Acolher em vez de excluir.
Humanizar em vez de violentar.
No Dia Internacional de Combate à Homofobia – 17 de Maio, vale lembrar:
ninguém deveria adoecer por causa do próprio afeto.
E, se o peso do preconceito tem afetado sua saúde mental, saiba que buscar ajuda não é fraqueza. É cuidado. É sobrevivência. É resistência.
Sua existência não precisa ser justificada para merecer respeito.

Dra. Carolina Petrus – CRM-PR 35386/ RQE 24747

